terça-feira, 12 de maio de 2009
Seção Mundo Pequeno (isso tende a aumentar...)
Por conta do meu trabalho em Barão Geraldo tenho por vezes almoçado no self-service de um hipermercado. Sempre nessas ocasiões trombo com um casal singular. Ele, numa cadeira de rodas elétrica, habilmente manejada pelos seus dedos e ela junto, sua esposa. Não conhecia Denise, apenas por foto. Mas conhecia o Xyko (assim mesmo que se escreve) de longa data, a sua fama o precedia. Xyko foi um frutos do trabalho de um dos maiores pregadores que conheci, o Adilson Donatelli, hoje residindo em BH. Xyko, apesar de sua limitação física é um dos seres humanos mais ativos que conheço, ele é capelão evangélico do HC da UNICAMP. Isso mesmo, limitado a uma cadeira de rodas, Xyko dedica sua vida a espalhar amor, consolo, fé e esperança, num lugar onde isso é artigo raro. Se quiser saber mais dele e acompanhar seu trabalho, acesse o blog xykomotta.blogspot.com.
Xyko é amigo de Adilson, que é amigo de Pepê (que está com Deus), que é amigo de Cidão, que é amigo de Edu Baez, que fez estudo com Pepê, que fez estudo com Adilson, que inspirou Edu Baez a palestrar, e por aí vai....A tapeçaria está se formando. Hoje almocei com Gustavo, grande amigo, que é filho da Denise, que participou dos primeiros estudos bíblicos com Iberê, que foi discipulado por Haroldo, que quando Pepê teve que partir com Jesus, levou a filha do Pepê ao altar, para se casar com o Alexandre, filho do Miguel, amigo de faculdade do Cidão. O Cidão passou bons 15 anos da vida falando de Jesus para o Miguel e nada. Aí o Alexandre, filho do Miguel, vai pra um acampamento, muda de vida, o Miguel começa a fazer estudo com o Iberê, que deu estudo para o Edu, que foi professor da Paula, esposa do Alexandre e filha do Pepê. E o Cidão tromba com o Miguel, convertido na igreja e firme com Deus. Ah, o Cidão é fruto do trabalho do Xyko e hoje trabalhamos juntos na mesma comunidade....olha a tapeçaria de novo. Como disse J. Donne no século XVII: "nenhum homem é uma ilha..."
É isso...em qual parte da tapeçaria o Artesão Maior tem colocado você?
sábado, 18 de abril de 2009
Marcolino e o sofá-cama
foi-me dado conviver com um espinho na carne...
que me esbofeteia todos os dias...
três vezes pedi ao Senhor que o tirasse de mim...
Ele me disse: ?a minha Graça é o bastante...
?o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza...?
(Paulo, em II Coríntios 12, paráfrase)
(Para Eduardo Baez e Ivan Capellato)
Marcolino veio subindo a rua com sua pasta. Saíra de uma reunião de vendas pesadíssima em São Paulo. Fechara mais um negócio. Pequeno, mas fechara. O dia, para sua surpresa, estava quase no fim. O calor matava. O ar condicionado que lá dentro do escritório estava gelado demais, fazia o calor aqui fora parecer ainda mais intenso. Tudo o que queria era uma água gelada, pegar o carro no estacionamento e ir para Campinas antes do "rush".
Parou num pequeno bar e pediu uma garrafa de água com gás. Pediu uma segunda e pensou num cafezinho. Descartou: calor demais. Em um segundo, passou os olhos pelas diversas garrafas expostas na prateleira. Queria ir embora.
Logo pegou a Marginal do Tietê. Impressionantemente, o trânsito vinha calmo. Saiu de São Paulo em vinte minutos, e logo estava na estrada que o levaria para casa. Pôs um CD de John Coltrane para tocar. Afrouxou a gravata, puxou as calças até o joelho, deixando o ar condicionado refrescar os tornozelos. Tirou o sapato do pé esquerdo, e logo o pôs de volta. Recostou-se e deixou que o som choroso de «In a Sentimental Mood» penetrasse pelos ouvidos e varresse de dentro da cabeça tudo o que significava enfado.
Pensou nos filhos. Aquelas duas pequenas criaturas que tanto dependiam dele. Onde estariam agora? Certamente na escola. Lembrou-se que ficaria com eles à noite. Que havia arrumado o apartamento. Que comprara uma lasanha de quatro queijos congelada. Que pegara o filme original de «A Fantástica Fábrica de Chocolate», com o genial Gene Wilder, muito melhor que aquele lixo computadorizado com o insuportável Johnny Depp. A música fez o efeito esperado. Metade da estrada e já estava relaxado. Agradeceu por isso, pelos filhos, pelo excelente relacionamento com eles.
Chegou na cidade quando escurecia. Parou o carro na porta do prédio de Rosemary e fez sua já peculiar oração pedindo sabedoria e paciência.
Os pequenos já estavam no saguão de entrada, com suas mochilinhas repletas de coisinhas, e seus sorrisos repletos de planos e de coisas para contar. Era um bom pai, sabia disso. Não fora dantes, mas agora era um bom pai.
Nos poucos segundos entre parar o carro e ir até o saguão contou várias vezes até dez. Manteria a calma, sabia disso. Não haveria discussões estéreis. Era um bom pai, sabia disso. Era um bom pai. Um bom pai. Um pai.
Rosemary veio logo atrás das crianças. Cumprimentou-o friamente e fez questão de chegar perto. Quis sentir-lhe o hálito. Ver se não havia bebido. Questionou-se até quando ela duvidaria que ele havia mudado. Que a bebida deixara de ser um problema. Já estava «limpo» há três anos. Depois de tantas mostras, como ela podia duvidar? Achou melhor não dizer palavra. Amanhã cedo traria os pequenos de volta. Bendita seja a guarda compartilhada. Pôs as crianças no banco de trás e saiu.
Chegou no pequeno apartamento. Olhou os cadernos, as lições de casa. Tirou as roupinhas das mochilas e pôs no armário. Montou o sofá-cama onde dormiria. Tinha uma parte do tecido que o revestia puído. Era puído, mas era o mais em conta, de acordo com o que restava do salário. Era puído, e por isso mesmo os filhos não dormiriam ali. Como de costume, os dois pequenos dormiriam no quarto. Comeram a lasanha. Frutas de sobremesa; tem que comer; sem conversa, tem que comer. Assistiram juntos ao filme. O mais velho não gostou: não havia os efeitos especiais. O mais novo gostou mais deste que vira abraçado com o pai. Hora de dormir e os pequenos vão para a cama. Orações, uma conversinha sobre o dia e o soninho. Boa noite.
Marcolino estava só, agora, com seus pensamentos.
Pensou em Rosemary. No divórcio que se iniciou conturbado, mas que ao final foi amigável. Nos primeiros tempos em que a solteirice foi um alívio. Poderia beber quando e o quanto quisesse. No amigo que um dia o encontrou caído na porta de um bar. Nas visitas que começou a lhe fazer. No pequeno grupo que se reunia na casa do amigo. Na mensagem que finalmente entendera e aceitara. Jesus pagando seu preço e aceitando-o como é. Sem reservas. Sem limites. Nos anos de caminhada. Estava limpo.
Agora, aqui, sozinho, a dor de haver perdido o tempo passado. De ter perdido um casamento. Rosemary agüentou o mais que pôde. Dois empregos perdidos por conta do copo. Um ano sem trabalhar. Sucessivos tratamentos sem resultado. O patrimônio se foi primeiro. Depois, os sonhos. Depois, o amor. Depois, o casamento.
Lembrou-se mais uma vez das noites sem fim. De acordar e não saber onde estava. Das mulheres que desfilaram por sua solteirice. De algo que chamavam de «fazer amor», mas que não tinha sentimentos. Não tinha abraços. Não tinha nomes. Não tinha amor, mas só fazer. Da bebida. Da bebida.
Era um alcoólico. Sabia disso. Não havia caminhos de volta. Seria um alcoólico para o resto de sua vida. Pensou se isso passava pela cabeça de seu grupo de estudo bíblico.
Às vezes, acordava suado com um pesadelo corrente. Rosemary aos gritos, entrando na sala da casa onde o grupo se reunia. «Bêbado! Bêbado!». A vergonha de ter que explicar que se controlava, há anos que se controlava, mas que aquilo não saía de diante, de trás, de baixo e de cima de si. Que pedira por um milagre. E que esse milagre não viera.
Como dói! Foi cobrir as crianças no quarto.
Voltou à sala, e pensou em Paulo, o apóstolo, não o amigo. Do que lera a seu respeito na Bíblia uns dias antes. Que havia um espinho, um mensageiro do diabo para esbofeteá-lo. Que pedira por três vezes para se ver livre. «Pai, tira de mim...». Depois não pediu mais pois o que Deus faz por ele se aperfeiçoa no espinho. No fim, ele chama o espinho de graça.
Já tinha ouvido em algum lugar que teólogos querem crer que o espinho era um problema na vista. Que isso fica muito óbvio quando se lê a narrativa sobre os irmãos que se pudessem dariam seus próprios olhos por ele. Custava a Marcolino crer. Paulo lá no fundo se mostrava um sujeito amargo, rancoroso. Um sujeito que quando ficava sozinho remoía dentro de si alguma coisa de seu passado. Como Marcolino, agora.
Podia ser uma provação mais íntima. Algo de que se envergonharia em público e que, em dado tempo, percebeu ser mais Graça que desgraça. Percebeu que só fazia mal a si. E que servia apenas para desmontar seu imenso ego. Apenas para fazê-lo não confiar cegamente em sua cultura ou em sua sólida formação religiosa. Ou pior: para fazê-lo não ser arrogante com relação às inúmeras almas que arrebanhava ao longo de seu novo Caminho.
É. É isso. Tinha um sonho. Um sonho de aquele passado não fizesse mais sentido. E que um dia, Rosemary estivesse ali sentada, com ele, ouvindo uma bela mensagem e comungando de seu novo coração de carne. Não seria mais sua esposa. Casara de novo com um bom sujeito. Mas seria sua amiga. Sua irmã.
Pensou consigo que Deus é Deus. Com a consciência tranqüila, sem ter problemas com a própria deidade. Até há pouco, nem sabia que esta palavra existe. Deus é Deus sem ter melindres ou dramas.
Deus não tem chulé, meias velhas ou sofá-cama puído na sua sala. Não tem contas vencidas a pagar. Não tem dramas de consciência. E não precisa sublimar isso com sentimentos mais ou menos escusos.
Pensou que ele, Marcolino, é quem precisa disso. E Paulo. E Ricardo. E Eduardo. E Renato.
Não sabia o que precisamente Paulo chamava de «espinho». Mas pensou naquele momento que Deus não brinca com a história das pessoas. Que educa, faz crescer. E se já pagou as contas, não se importa mais com o mau-cheiro quando tira os sapatos, ou com os furos nas meias um pouco velhas, ou com os do sofá-cama. Aqueles problemas que só as pessoas sabem que têm.
Pensou que nós é que erramos. Primeiro, em achar que isso -diante dele- é um problema. Naquele dia ele dirá: «do que você está falando, Marcolino?». E segundo, por acharmos que não estamos sujeitos aos furos de nossos sofás.
Pensou que era uma pessoa qualquer, que a fé não torna ninguém um super-homem. A queda estava nos planos dele. Os filhos dormindo no quarto, o emprego, o grupo de estudo, agora, só querem dizer que Deus faz, apesar da história. A Graça basta.
Amadurecer não é fácil. Passava exatamente por isso, agora: dor do crescimento. Por isso o pensamento sobre as inconfessáveis frieiras da alma. Todo mundo é lobo por dentro. Todo mundo tem um sofá-cama de que se envergonhar.
Tinha o seu milagre, suspirou. Virou para o lado. Acordou só no dia seguinte.
domingo, 12 de abril de 2009
Sobre hoje (Domingo de Páscoa) ou considerações e implicações de um túmulo vazio...
Desde a sua origem o Cristianismo mostrou-se como a resposta definitiva para as três perguntas filosóficas que angustiam o coração e a alma da humanidade. Desde os pré-socráticos (séc. VIII a VI a.C.), a sabedoria humana tenta satisfazer a esses questionamentos:
1. Quem sou eu?
2. De onde eu vim?
3. Para onde eu vou?
Quando Jesus Cristo, o Deus Vivo que entrou na História, andou entre nós, deixou-se matar para pagar a minha e a sua dívida com o Pai, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, de onde voltará para nos buscar e viver para sempre com Ele, as três perguntas foram Nele respondidas.
A primeira pergunta é brilhantemente respondida por Brennan Manning, em O obstinado amor de Deus, “eu sou filho amado de Deus”. Você tem consciência disso? Se você tem, qual a razão então para em determinados momentos da nossa caminhada cristã nos esquecemos dessa maravilhosa condição que nos é dada pelo próprio Deus Filho? (Jo 1.1-14). Manning sustenta uma pergunta perturbadora, quando Cristo nos encontrar, Ele nos perguntará, assim como fez com Simão Pedro: “Você me ama?”, se a nossa resposta for um sim carregado de certeza, Ele nos tornará a perguntar: “Então por que apenas o Meu Amor não foi suficiente para você?”.
A segunda pergunta encontra resposta nas palavras do salmo 139, onde o salmista nos descreve a maneira maravilhosa de como o próprio Deus nos planejou e nos amou antes da nossa própria existência física, antes da fundação do mundo, isso é MARAVILHOSO!
A terceira pergunta nos é revelada nas últimas páginas do Novo Testamento, a partir do capítulo 21, do livro do Apocalipse, o apóstolo João, já velho, no crepúsculo de sua vida, contempla a consumação de tudo, ao vislumbrar a eternidade tem o seu coração acalmado em meio às tribulações da História. O Império Romano, sob o cetro de Nero, persegue e oprime impiedosamente o Cristianismo, discípulos são mortos nas arenas de maneira atroz. Caso negassem a Cristo e proclamassem a César como Senhor, teriam suas vidas poupadas. Preferiram a morte, era um tempo em que os cristãos estavam dispostos a morrer pela sua fé e, não, a matar por ela. Nesse cenário desolador, João vê a eternidade, seu coração se enche de alegria, esperança e amor que vem do Alto. Deus continua sendo Deus, Ele reina soberano e está pronto a intervir na História com seus exércitos e consumar seu plano de resgate da humanidade para si. Mas antes é necessário criar um povo que se chame de Seu. E isto Ele tem feito ao longo dos séculos, desde uma manhã de domingo, quando um túmulo amanheceu vazio.
PARA QUE SERVE A HISTÓRIA?
Para que serve a História?
“Pai, diga-me lá, para que serve a História?” Era assim que um rapazinho meu próximo parente interrogava, há poucos anos, um pai historiador.
(BLOCH, Marc, Introdução à História, Pub. Europa América, p. 12)
Estas duas primeiras linhas iniciam um dos textos mais brilhantes, se não o mais brilhante, sobre o ofício do historiador. Quando, em 1992, tomei contato pela primeira vez com ele, era eu um rapazola um tanto quanto deslumbrado com o início da vida acadêmica. O tempo passou, decepcionei-me com o academicismo e demais “ismos” desse meio. Contudo, o tempo serviu para firmar ainda mais a minha fé na “velha história da cruz”.
O Cristianismo é uma religião histórica (eu sei que não gostamos de usar a palavra religião, mas usemo-na aqui sem prés ou pós-conceitos). Jesus quando ensinava às multidões e aos discípulos o fazia através do uso da História do Povo de Deus. Mesmo o próprio Deus Pai, quando fala aos israelitas no deserto do Sinai, no livro do Êxodo, o faz recorrendo à memória histórica coletiva (Ex. 19.3-6). E assim o é por toda a Bíblia.
O advento da Reforma no século XVI reforçou ainda mais associação Cristianismo-História. Uma das características do Renascimento Cultural do século XVI, do qual emergiu o processo reformista, se baseou na retomada de valores e pensamentos da Antiguidade Clássica (séc. XX a.C.-V d.C.). Desta forma, qual era o livro mais acessível para se conhecer as categorias de pensamento e ação de uma sociedade do século I d.C.? Daí advém um dos pilares reformistas, a tradução e livre acesso e interpretação da Bíblia.
Ainda na virada do século XVI para o XVII, cristãos escoceses não aceitaram a interferência do monarca no governo das comunidades locais, baseando-se na Sagrada Escritura e, conseqüentemente, no modelo apresentado no Novo Testamento de estrutura eclesiástica, esses cristãos da Escócia estruturam um sistema de governo onde o conjunto de membros daquelas comunidades elegia seus líderes (conhece isso de algum lugar?).
Alexander de Tocqueville, em sua obra A Democracia na América, afirma que nos EUA se organizou primeiro a paróquia, posteriormente o município, em seguida a comarca, na seqüência o Estado e por fim a União. Mas observe onde tudo começou, na comunidade local. De onde os Puritanos do século XVII tiraram essa idéia? Como eles tinham conhecimento?
Nós, cristãos do século XXI, não podemos nos furtar a ignorar a História, não apenas a História Universal, mas nossa história pessoal na caminhada com Deus, a história da nossa comunidade local. Conhecê-la nos ajuda a entender melhor as Escrituras e ensiná-las a outros. Fazer marcos de fé, como no Antigo Testamento, nos faz lembrar quanto Deus já fez em nossas vidas e que a nossa história ainda não acabou. Ela se concluirá naquele grande Dia, descrito em Apocalipse 21. Quando começará uma nova história, aliás, ela já começou, quando Deus nos alcançou.
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Discurso da vitória - BARACK OBAMA
Olá, Chicago!
Se alguém aí ainda duvida de que os Estados Unidos são um lugar onde tudo é possível, que ainda se pergunta se o sonho de nossos fundadores continua vivo em nossos tempos, que ainda questiona a força de nossa democracia, esta noite é sua resposta.
É a resposta dada pelas filas que se estenderam ao redor de escolas e igrejas em um número como esta nação jamais viu, pelas pessoas que esperaram três ou quatro horas, muitas delas pela primeira vez em suas vidas, porque achavam que desta vez tinha que ser diferente e que suas vozes poderiam fazer esta diferença.
É a resposta pronunciada por jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, indígenas, homossexuais, heterossexuais, incapacitados ou não-incapacitados.
Americanos que transmitiram ao mundo a mensagem de que nunca fomos simplesmente um conjunto de indivíduos ou um conjunto de estados vermelhos e estados azuis.
Somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.
É a resposta que conduziu aqueles que durante tanto tempo foram aconselhados por tantos a serem céticos, temerosos e duvidosos sobre o que podemos conseguir para colocar as mãos no arco da História e torcê-lo mais uma vez em direção à esperança de um dia melhor.
Demorou um tempo para chegar, mas esta noite, pelo que fizemos nesta data, nestas eleições, neste momento decisivo, a mudança chegou aos EUA.
Esta noite, recebi um telefonema extraordinariamente cortês do senador McCain.
O senador McCain lutou longa e duramente nesta campanha. E lutou ainda mais longa e duramente pelo país que ama. Agüentou sacrifícios pelos EUA que sequer podemos imaginar. Todos nos beneficiamos do serviço prestado por este líder valente e abnegado.
Parabenizo a ele e à governadora Palin por tudo o que conseguiram e desejo colaborar com eles para renovar a promessa desta nação durante os próximos meses.
Quero agradecer a meu parceiro nesta viagem, um homem que fez campanha com o coração e que foi o porta-voz de homens e mulheres com os quais cresceu nas ruas de Scranton e com os quais viajava de trem de volta para sua casa em Delaware, o vice-presidente eleito dos EUA, Joe Biden.
E não estaria aqui esta noite sem o apoio incansável de minha melhor amiga durante os últimos 16 anos, a rocha de nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira-dama da nação, Michelle Obama.
Sasha e Malia amo vocês duas mais do que podem imaginar. E vocês ganharam o novo cachorrinho que está indo conosco para a Casa Branca.
Apesar de não estar mais conosco, sei que minha avó está nos vendo, junto com a família que fez de mim o que sou. Sinto falta deles esta noite. Sei que minha dívida com eles é incalculável.
A minha irmã Maya, minha irmã Auma, meus outros irmãos e irmãs, muitíssimo obrigado por todo o apoio que me deram. Sou grato a todos vocês. E a meu diretor de campanha, David Plouffe, o herói não reconhecido desta campanha, que construiu a melhor campanha política, creio eu, da história dos Estados Unidos da América.
A meu estrategista chefe, David Axelrod, que foi um parceiro meu a cada passo do caminho.
À melhor equipe de campanha formada na história da política. Vocês tornaram isto realidade e estou eternamente grato pelo que sacrificaram para conseguir.
Mas, sobretudo, não esquecerei a quem realmente pertence esta vitória. Ela pertence a vocês. Ela pertence a vocês.
Nunca pareci o candidato com mais chances. Não começamos com muito dinheiro nem com muitos apoios. Nossa campanha não foi idealizada nos corredores de Washington. Começou nos quintais de Des Moines e nas salas de Concord e nas varandas de Charleston.
Foi construída pelos trabalhadores e trabalhadoras que recorreram às parcas economias que tinham para doar US$ 5, ou US$ 10 ou US$ 20 à causa.
Ganhou força dos jovens que negaram o mito da apatia de sua geração, que deixaram para trás suas casas e seus familiares por empregos que os trouxeram pouco dinheiro e menos sono.
Ganhou força das pessoas não tão jovens que enfrentaram o frio gelado e o ardente calor para bater nas portas de desconhecidos, e dos milhões de americanos que se ofereceram como voluntários e organizaram e demonstraram que, mais de dois séculos depois, um Governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra.
Esta é a vitória de vocês.
Além disso, sei que não fizeram isto só para vencerem as eleições. Sei que não fizeram por mim.
Fizeram porque entenderam a magnitude da tarefa que há pela frente. Enquanto comemoramos esta noite, sabemos que os desafios que nos trará o dia de amanhã são os maiores de nossas vidas - duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira em um século.
Enquanto estamos aqui esta noite, sabemos que há americanos valentes que acordam nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para dar a vida por nós.
Há mães e pais que passarão noites em claro depois que as crianças dormirem e se perguntarão como pagarão a hipoteca ou as faturas médicas ou como economizarão o suficiente para a educação universitária de seus filhos.
Há novas fontes de energia para serem aproveitadas, novos postos de trabalho para serem criados, novas escolas para serem construídas e ameaças para serem enfrentadas, alianças para serem reparadas.
O caminho pela frente será longo. A subida será íngreme. Pode ser que não consigamos em um ano nem em um mandato. No entanto, EUA, nunca estive tão esperançoso como estou esta noite de que chegaremos.
Prometo a vocês que nós, como povo, conseguiremos.
Haverá percalços e passos em falso. Muitos não estarão de acordo com cada decisão ou política minha quando assumir a presidência. E sabemos que o Governo não pode resolver todos os problemas.
Mas, sempre serei sincero com vocês sobre os desafios que nos afrontam. Ouvirei a vocês, principalmente quando discordarmos. E, sobretudo, pedirei a vocês que participem do trabalho de reconstruir esta nação, da única forma como foi feita nos EUA durante 221 anos, bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada sobre mão calejada.
O que começou há 21 meses em pleno inverno não pode acabar nesta noite de outono.
Esta vitória em si não é a mudança que buscamos. É só a oportunidade para que façamos esta mudança. E isto não pode acontecer se voltarmos a como era antes. Não pode acontecer sem vocês, sem um novo espírito de sacrifício.
Portanto façamos um pedido a um novo espírito do patriotismo, de responsabilidade, em que cada um se ajuda e trabalha mais e se preocupa não só com si próprio, mas um com o outro.
Lembremos que, se esta crise financeira nos ensinou algo, é que não pode haver uma Wall Street (setor financeiro) próspera enquanto a Main Street (comércio ambulante) sofre.
Neste país, avançamos ou fracassamos como uma só nação, como um só povo. Resistamos à tentação de recair no partidarismo, na mesquinharia e na imaturidade que intoxicaram nossa vida política há tanto tempo.
Lembremos que foi um homem deste estado que levou pela primeira vez a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre os valores da auto-suficiência e da liberdade do indivíduo e da união nacional.
Estes são valores que todos compartilhamos. E enquanto o Partido Democrata conquistou uma grande vitória esta noite, fazemos com certa humildade e a determinação para curar as divisões que impediram nosso progresso.
Como disse Lincoln a uma nação muito mais dividida que a nossa, não somos inimigos, mas amigos. Embora as paixões os tenham colocado sob tensão, não devem romper nossos laços de afeto.
E àqueles americanos cujo apoio eu ainda devo conquistar, pode ser que eu não tenha conquistado seu voto hoje, mas ouço suas vozes. Preciso de sua ajuda e também serei seu presidente.
E a todos aqueles que nos vêem esta noite além de nossas fronteiras, em Parlamentos e palácios, a aqueles que se reúnem ao redor dos rádios nos cantos esquecidos do mundo, nossas histórias são diferentes, mas nosso destino é comum e começa um novo amanhecer de liderança americana.
A aqueles que pretendem destruir o mundo: vamos vencê-los. A aqueles que buscam a paz e a segurança: apoiamo-nos.
E a aqueles que se perguntam se o farol dos EUA ainda ilumina tão fortemente: esta noite demonstramos mais uma vez que a força autêntica de nossa nação vem não do poderio de nossas armas nem da magnitude de nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e firme esperança.
Lá está a verdadeira genialidade dos EUA: que o país pode mudar. Nossa união pode ser aperfeiçoada. O que já conseguimos nos dá esperança sobre o que podemos e temos que conseguir amanhã.
Estas eleições contaram com muitos inícios e muitas histórias que serão contadas durante séculos. Mas uma que tenho em mente esta noite é a de uma mulher que votou em Atlanta.
Ela se parece muito com outros que fizeram fila para fazer com que sua voz seja ouvida nestas eleições, exceto por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.
Nasceu apenas uma geração depois da escravidão, em uma era em que não havia automóveis nas estradas nem aviões nos céus, quando alguém como ela não podia votar por dois motivos - por ser mulher e pela cor de sua pele.
Esta noite penso em tudo o que ela viu durante seu século nos EUA - a desolação e a esperança, a luta e o progresso, às vezes em que nos disseram que não podíamos e as pessoas que se esforçaram para continuar em frente com esta crença americana: Podemos.
Em uma época em que as vozes das mulheres foram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela sobreviveu para vê-las serem erguidas, expressarem-se e estenderem a mão para votar. Podemos.
Quando havia desespero e uma depressão ao longo do país, ela viu como uma nação conquistou o próprio medo com uma nova proposta, novos empregos e um novo sentido de propósitos comuns. Podemos.
Quando as bombas caíram sobre nosso porto e a tirania ameaçou ao mundo, ela estava ali para testemunhar como uma geração respondeu com grandeza e a democracia foi salva. Podemos.
Ela estava lá pelos ônibus de Montgomery, pelas mangueiras de irrigação em Birmingham, por uma ponte em Selma e por um pregador de Atlanta que disse a um povo: "Superaremos". Podemos.
O homem chegou à lua, um muro caiu em Berlim e um mundo se interligou através de nossa ciência e imaginação.
E este ano, nestas eleições, ela tocou uma tela com o dedo e votou, porque após 106 anos nos EUA, durante os melhores e piores tempos, ela sabe como os EUA podem mudar.
Podemos.
EUA avançamos muito. Vimos muito. Mas há muito mais por fazer. Portanto, esta noite vamos nos perguntar se nossos filhos viverão para ver o próximo século, se minhas filhas terão tanta sorte para viver tanto tempo quanto Ann Nixon Cooper, que mudança virá? Que progresso faremos?
Esta é nossa oportunidade de responder a esta chamada. Este é o nosso momento. Esta é nossa vez.
Para dar emprego a nosso povo e abrir as portas da oportunidade para nossas crianças, para restaurar a prosperidade e fomentar a causa da paz, para recuperar o sonho americano e reafirmar esta verdade fundamental, que, de muitos, somos um, que enquanto respirarmos, temos esperança.
E quando nos encontrarmos com o ceticismo e as dúvidas, e com aqueles que nos dizem que não podemos, responderemos com esta crença eterna que resume o espírito de um povo: Podemos.
Obrigado. Que Deus os abençoe. E que Deus abençoe os Estados Unidos da América".
(Barack Hussein Obama Jr., 04/11/2008, Presidente Eleito dos EUA)
Yes! We Can!! And now, Mister President?
Sim, podemos! E agora Obama?
Como historiador e cientista social, não poderia me furtar a refletir sobre o aconteceu nas últimas 48 horas nos EUA.
Estou ainda absorto nas leituras, vídeos e áudios sobre Barack Obama. Sem dúvida, é histórico, com H maiúsculo. Aliás, a primeira década do século XXI tem sido de tirar o fôlego de qualquer sujeito que faça das Ciências Humanas seu meio de vida. Observe comigo:
· 2001 – torres são derrubadas por aviões em Nova Iorque;
· 2002 – um operário é eleito num país tradicionalmente oligárquico e aristocrático, a “Esperança venceu o medo”;
· 2004 – ondas gigantescas devastam o Pacífico Sul;
· Entre 2004 e 2008, a América Latina assiste à ascensão de novos políticos populares de origem nativa, rompendo a tradição política herdada dos criollos;
· 2008 – um padre rompe 60 anos de dominação do Partido Colorado no Paraguai;
· Nov/2008 – Um negro, com nome muçulmano, é eleito Presidente dos EUA.
Para onde vai o mundo? Não se faz idéia. O fato é que se espera muito de Obama e isso é muito perigoso. Salvadores do mundo são preocupantes, mesmo quando eles não se considerem assim.
Um discurso emocionante, cada palavra dita na medida certa da emoção. Como não se lembrar de Martin Luther King (I have a dream)? Se você notar, há citações de Lincoln, King e dos pais da pátria em todo o discurso de Obama. A imagem do Reverendo Jesse Jackson, que marchou com Luther King em 1963 e o socorreu após o tiro fatal em 1968 é de arrepiar.
Enfim, Obama ganhou e até o adversário derrotado o apoiou em seu discurso de despedida. Uso Drummond de Andrade, um poeta que me faz muita falta, e indago: “E agora Obama?” E me lembro de Nelson Rodrigues: “Toda a unanimidade é burra”.