sábado, 1 de novembro de 2008

491 anos de Reforma Protestante, e agora, o que fazer?

No dia 31 de outubro de 1517 o monge agostiniano Martinho Lutero afixou nas portas de sua igreja, em Wittemberg, na Alemanha, um anúncio contendo 95 teses contra a venda das indulgências e a infalibilidade do Papa.  Esse gesto inaugurou um processo histórico conhecido como Reforma Protestante.

Você que me lê neste momento já é suficientemente crescido para se lembrar de seu pecado mais escabroso, aquele que só de lembrar, estando sozinho, você sente um aquecimento por dentro, as faces ruborizam e a vergonha toma conta do seu ser.  Esse mesmo! Lembrou?  Pois bem, se fosse possível para você pagar um determinado valor que o livrasse desse sentimento, quanto você pagaria?

Pois bem, durante a Baixa Idade Média (séculos XI ao XVI), disseminou-se a idéia da necessidade de se pagar indulgências para a obtenção do perdão divino, eliminação dos pecados (passado, presente e futuro) e garantia de acesso ao Paraíso, sem passar pelo Purgatório (espécie de ante-sala do Céu, para purificar a sua alma, uma vez que o sacrifício vicário de Cristo não era suficiente, vê se pode isso...). Ah!  Se você pagasse o dobro do valor estipulado, poderia escolher um parente morto para livrá-lo do Purgatório também, já que ele morreu sem saber dessa liquidação relâmpago de perdão e salvação.

Após formar-se no seminário, o jovem Lutero foi para Wittemberg, lecionar Teologia do Novo Testamento.  Devido à sua sagacidade e raciocínio brilhante, associado às inquietações e indagações típicas do homem renascentista, Lutero logo se tornou um dos professores mais populares da universidade.  Passou a ministrar as missas para a cidade também, mas de uma forma totalmente nova, falando de frente para os fiéis, em alemão, quando a prática era de costas para o público e em latim, ou seja, ninguém entendia patavinas... As pessoas saíam da igreja, após a missa ministrada por Lutero dizendo: “Finalmente entendi alguma coisa!” ou “Agora sim!”.  Alguns tinham aquela famosa reação bovina: “hmmmmmmmmmmmm...”

O superior de Lutero, o bispo de Tetzel, autorizou a venda de indulgências em Wittemberg, Lutero protestou contra o fato, tentou instruir os fiéis e finalmente afixou as teses na porta da sua igreja.  Há que se entender o contexto da época, as igrejas eram o centro social, político, cultural e, de vez em quando, religioso das cidades medievais.  Afixar algum anúncio na porta de uma igreja era o mesmo que colocar um anúncio de primeira página no jornal de maior circulação de uma cidade dos dias atuais.  Tinha uma divulgação e credibilidade.

Lutero foi chamado a retratar-se de suas teses, sob pena de excomunhão e morte.  Pediu 24 horas para pensar e orar, de acordo com a tradição, após esse período, respondeu:

"Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão - porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos - pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável.

Não posso fazer outra coisa, esta é a minha posição. Que Deus me ajude!” (Worms, 17 de abril de 1525).  Nesta ocasião, Lutero tinha 42 anos de idade.  Havia publicado as suas teses aos 34 anos.  Bons tempos nos quais jovens de 34 anos (e digo jovens, pois para mim, que estou batendo nos 40, todo sujeito abaixo dessa idade é novinho, novinho, ainda mais que temos adolescentes de 40 anos atualmente...) estavam prontos a mudar seu mundo.

Mas isso tudo é História, passaram-se 491 anos.  A Reforma é uma realidade no ocidente e no mundo.  O Brasil é o país que mais exporta missionários evangélicos.  O Protestantismo é o seguimento religioso que mais cresce no nosso país.  Aliás, virou moda o sujeito dizer que se converteu.  Alguns dos que me lêem lembram-se do tempo em que dizer que era protestante numa sala de aula ou ambiente de trabalho era sinônimo de exclusão, de estranhamento.  Um tempo atrás conversava com um amigo, filho de pastor, que me contava das dificuldades para se plantar igrejas no interior do Brasil.  Momentos em que ele se lembrava de ficar encolhido, abraçado à sua mãe, dentro de casa, enquanto pessoas apedrejavam a casa pelo simples fato de serem protestantes, ou ainda, de ser colocado isolado na sala de aula, para não se misturar com as outras crianças. 

Hoje temos garantida a nossa liberdade na própria lei do país, como isso custou caro.  Como o simples fato de domingo eu sair da minha casa, com a minha família, ir para a igreja, encontrar irmãos da mesma fé, louvar, ouvir a Palavra de Deus, tudo isso livremente, sem hostilidades.  Só isso já se torna uma grande benção.  Mas foi caro, muito caro. 

É notório que a igreja protestante necessita de uma nova Reforma, perdemos a simplicidade do evangelho, perdemos a suficiência da Cruz. A cada dia ouço sobre o surgimento de novo profeta ou profetisa, da necessidade de saber mais sobre o inimigo do que sobre Deus, com a desculpa de se estar mais equipado para o “combate”.  Ouço sobre o aumento do sectarismo e populismo evangélico, pessoas que vão às igrejas e não entendem o dialeto ali falado ou a coreografia apresentada nesse momento denominado de “louvor”.

Que nesse dia de aniversário da Reforma possamos nos contentar e alegrar com as palavras de Lutero:

Somente Cristo, Somente a Graça, Somente a Fé

 


Campinas, Primavera de 2008

terça-feira, 3 de junho de 2008

MELHORES MOMENTOS - A história do Reginaldo

Há alguns anos escrevi essa história em outro espaço. Duas semanas atrás, conversando com turma de universitários da Chácara Primavera contei a história do Reginaldo, que reproduzo abaixo.

A MELHOR PROFISSÃO DO MUNDO

Ser professor é a melhor profissão do mundo. Ponto, parágrafo!

Dias atrás escrevi que a juventude de hoje carece de sonhos, desafios e limites. Tive reações adversas, mas, para aqueles que me argüiram e afirmaram que exagerei, deixem-me relatar um fato ocorrido há algum tempo atrás e que me inspira até hoje.

Temos que voltar a 1995, naquele ano me envolvi em um projeto de implantação de uma grife educacional em Campinas, que alavancou a minha carreira e é diretamente responsável pela minha projeção no mercado dos cursinhos pré-vestibulares. Mas sobre isso escreverei posteriormente para exorcizar os fantasmas de meu passado.

Naquele ano tornei-me coordenador de um cursinho pré-vestibular, além de lecionar no mesmo local, o que me fez conviver diariamente naquela instituição, dividi a coordenação com um grande amigo (Lorenço), eu ficava no turno tarde/noite. Por conta disso, nos horários de saída da turma da tarde e entrada da turma da noite eu estava sempre presente e acabei conhecendo mais pessoalmente alguns alunos e suas histórias. Apesar do desgaste maior, sempre tive uma maior predileção pelas turmas noturnas, costumam dar mais valor ao nosso trabalho pois, geralmente, são os próprios alunos que custeiam seus estudos.

Dentre os vários que conheci, Reginaldo (turma da noite) foi o mais marcante. Certa tarde, por volta das 17h45, noto que no saguão de recepção do curso, lá estava Reginaldo folheando o jornal do dia. Puxei papo:

- Meio cedo pra você estar aqui, camarada, não dá tempo de ir até em casa e voltar pra aula das 19h15? Indaguei.

- Xi, professor, se eu fizer isso, perco a hora, moro longe, por isso prefiro vir pra cá depois do trabalho, leio o jornal e vou estudar um pouco até o ínicio da aula. Assim ele me respondeu.

- Pelo menos um lanche você toma? Continuei.

- Somente enquanto duram meus tíquetes durante o mês, depois eu aguento até chegar em casa, sabe como é, passagem de ônibus, alimentação, vai grana e o que eu ganho vai praticamente tudo pra pagar o cursinho....

- Vai prestar o que?

- Engenharia elétrica, noturno, na Unicamp, bem concorrido, né?

- De fato, mas se você continuar assim, vai passar Reginaldo, boa sorte...

Encerrei a conversa condoído com o relato, esse menino saía de casa todos os dias por volta das 6h00, trabalhava o dia todo, vinha pro cursinho, às vezes sem jantar, sem um banho revigorante, assistia a todas as aulas, não faltava aos simulados que eram aplicados nos domingos pela manhã e as suas chances eram mínimas. Disse pra ele que daquele dia em diante ele ficava proibido de assistir aula sem, pelo menos, lanchar. Pedi pro pessoal da cozinha, que preparava o lanche dos professores para separar um lanche a mais e dar pro Reginaldo, que, em princípio, não aceitou,mas diante da minha insistência (que não foi tanta assim...) acabou cedendo.

Passado esse fato, houve uma noite que tive que ficar até o fechamento do curso, nesse tempo as aulas iam até 23h20. Vai hoje colocar aulas depois das 22h30.....não fica ninguém. Assim que todos se foram, saí da escola, me despedi do vigia que passava a noite no prédio e dirigi-me ao estacionamento, era uma fria noite de maio em Campinas e o outono estava mais para inverno naquela ocasião. Ao sair do curso me deparo com Reginaldo todo encolhido debaixo da marquise do prédio. Fiquei sabendo que todos os dias ele esperava seu pai ali, que passava para buscá-lo entre 0h30 e 1h00....O pai de Reginaldo era motorista de ônibus fretado, que transportava alunos para uma cidade próxima, após deixar todos, o pai voltava pra pegar o filho e voltarem juntos pra casa. Chegando em casa, ele ainda estudava até as 3h00...

Fiquei sabendo também que aquele seria seu primeiro e último ano de cursinho, pois o seu salário ajudava nas despesas domésticas e já estava fazendo falta, passar na Unicamp era a única possibilidade de continuar seus estudos...Eu e meus companheiros mais chegados de profissão passamos a sonhar junto com ele. Veio o vestibular e a apreensão da 1a. fase, Reginaldo passou....passamos a respirar mais aliviados, mas agora vinha a agonia da 2a. fase, quatro dias de provas em janeiro, pra depois ficar um mês apreensivo, esperando a lista de aprovados.

O fato é, Reginaldo foi aprovado, quando recebemos a lista (nessa época ainda não se divulgava pela internet...absurdo, não?) e pudemos ver seu nome nela, foi uma alegria sem tamanho, risos, choro, caras pintadas, cabelos raspados... e depois disso perdi o contato com o Reginaldo...trombei com ele no mês passado, na Unicamp. Aliás, não é mais Reginaldo, é DOUTOR Reginaldo. Ele concluiu sua graduação em 2001, entre 2002 e 2006 ele pós-graduou-se e agora está partindo para a Universidade de Albany (EUA), onde fará seu pós-doutoramento......Como diz o Prof. Dr. Leandro Karnal: "Não transformamos nada sozinhos, mas transformamos.."

Em tempo, o pai de Reginaldo não precisa mais dirigir ônibus fretados....Boa sorte camarada, continue nos enchendo de orgulho!!!!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

DEUS CONOSCO

...”dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel”, que significa “Deus conosco”. (Mt 1.23)

Caso você não more numa caverna, sem acesso ao que acontece no mundo, deve ter acompanhado o caso dos reféns das FARCs. Chamou-me muito a atenção o caso do menino Juan David (também conhecido como Emmanuel). Fruto de uma relação com um seqüestrador, Emmanuel tinha tudo para não vingar. Nascido de cesariana, no meio da selva, parto feito por um guerrilheiro que estudara medicina, em condições precárias. Uma faca de cozinha foi utilizada para fazer a incisão. Logo ao nascer, o bebê teve o braço fraturado. Aos oito meses foi tirado da mãe e criado em condições mínimas por uma família. Com leishmaniose, malária, diarréia aguda e a constante fratura no bracinho, o bebê chamou a atenção dos assistentes sociais de um hospital, que conseguiram a guarda do mesmo pelo Estado Colombiano. Transferido a Bogotá, incógnito, Emmanuel foi adotado por uma família substituta. Ontem (14/01/2008) encontrou sua mãe biológica. Como diz meu amigo Fred Lima, Deus protege os bebês e os bêbados. No caso de Emmanuel, coincidência ou não, seu nome demonstra a Divina Providência. Emmanuel quer dizer “Deus conosco”.

Ao Mestre Márcio, com carinho...

Por que ELE vive posso crer no amanhã

Por que ELE vive temor não há

Mas eu bem sei, eu sei...

Que a minha vida, está nas mãos do meu Jesus,

Que vivo está...

E quando, enfim, chegar a hora..

Em que a morte, enfrentarei

Sei que então, terei vitória

Verei na glória, o meu Jesus

Que vivo está...

Este era um dos cânticos preferidos do Márcio. Durante a semana, o Márcio era professor, um brilhante e exigente professor. Interessante isso, ele acreditava numa educação formal, rígida e consistente. Não tinha o compromisso de agradar o aluno, ou, o cliente, como definem alguns mantenedores hoje. O compromisso do Márcio era com a educação, com o escrever bem e coerente. Essa exigência era mal interpretada por alguns alunos. Márcio não fazia média e deixava claro o óbvio, a sala de aula tem ficado burra nestes últimos anos. Em nome de uma pseudo-modernidade tem-se deixado achincalhar a escrita com a mais variada gama de absurdos. Era contra isso que o Márcio militava. Aos finais de semana, Márcio deixava de ser professor e se transformava num aluno aplicado da Escola Bíblica Dominical da Igreja do Nazareno Central de Campinas.

Aproveitando isso, no capítulo 11 do Evangelho de São João, Jesus se depara com a morte de um querido amigo, Lázaro. Depois de avisado da doença grave e eminente morte do amigo, ele ainda se demora a chegar, ao ser avisado da morte, ele continua a se demorar a chegar, as irmãs de Lázaro (Marta e Maria) não se conformam com a demora do Mestre. Ele chega à Betânia, cidade de Lázaro, e se depara com as cenas de pranto em função da morte do amigo querido. As irmãs cobram a presença de Jesus, sem muito pressão, mas cobram. O Mestre se achega ao túmulo, se vê face a face com a morte, a morte de um amigo querido, precioso. As Sagradas Escrituras afirmam que a morte não fazia parte do plano A de Deus para o homem. A Bíblia denomina a morte como “o último inimigo a ser destruído”(1 Co 15.26). Interessante como as traduções dessa passagem (Jo 11.33-35) nos dão uma idéia equivocada do que o evangelista João quis nos dizer. No verso 33 desse capítulo lemos que Jesus ao deparar-se com essa cena “agitou-se no espírito e perturbou-se” (NVI). O verbo grego original aqui é enebrimesato, termo usado para referir a “bufar, resfolegar em forma de indignação humana e/ou em referência a cavalos”. Quando Jesus se aproxima do túmulo de seu amigo, ele está com uma fúria irreprimível! Ele vê, nas palavras de Calvino, a “violenta tirania” da morte. A anormalidade, a opressão daquilo que não fazia parte do plano A. A segunda reação de Jesus é de profunda tristeza e compaixão. No verso 35, Jesus chora, chora com as irmãs de Lázaro, se junta à elas.

Márcio era um grande amigo, convivi alguns anos com ele e sou grato a Deus pelo privilégio desses anos. Conheci-o através de uma amiga comum, a Valéria, professora de literatura. Durante dois anos viajamos juntos para trabalhar. Bons papos indo à Piracicaba. Inacreditável como a sua partida, de maneira abrupta, me deixou pasmo. Conversando com a Valéria no dia do funeral, em direção à Rio Pardo, disse-lhe que não conseguia trabalhar a idéia de sua morte, que para mim ele tinha, na verdade, partido para fazer seu doutorado na Europa (seu sonho recorrente). Uma vez por lá, devido à sua competência, fora contratado por uma universidade e não mais voltaria para os trópicos. Essa idéia é melhor. Deixar de viver é algo determinado pela natureza, mas deixar de viver tão cedo e com tantos planos a cumprir, não me conformo. Márcio, você alcançou algo que almejo alcançar, estar na presença do Pai Celestial. Eu ainda estou na ante-sala, você já foi pra sala principal. Vai em paz amigo, que este mundo não pode mais te fazer mal.

Você escreve melhor do que uma menina de 9 anos???

Olá a todos!! Faz tempo que não apareço por aqui...achei um texto da minha filha, que transcrevo da maneira mais fiel possível em relação ao manuscrito original...depois eu volto...

31/08/2007

Caros (as) alunos (as):

Hoje irei contar uma história real, ela começa assim:

Há alguns anos atrás (qual ano eu não lembro), a NASA resolveu mandar astronautas para a lua e, como sempre, a NASA tem que fazer estudos sobre os dias, horas e etc.

Toda a vez que eles iam fazer estudos, o computador parava e eles perceberam que estava faltando um dia na história. Um dos cientistas era cristão e se lembrou de uma história em que o sol parou, então ele disse:

- Pessoal, na Bíblia tem uma história que diz que o sol parou!

Eles foram ver e constataram que o cientista tinha razão!

Bom, agora vou falar quem sou eu...Sou a Anna Beatriz, filha do Prof. Eduardo, conheci a história com a professora Cláudia e olha que eu tenho 9 anos.

Agora, se você quiser saber a história do sol que parou, procure em Josué 10.1-28.

BOA AULA.

sábado, 13 de outubro de 2007

HOJE É DIA DAS CRIANÇAS

"B-I-C-I-C-L-E-T-A (Bê, I, Cê, I, Cê, Ele, Ê, Tê, A), sou sua amiga bicicleta...sou eu te que te levo pelos parques a correr...", assim cantava Simone numa coletânea de músicas infantis da década de 80, Casa de Brinquedos (http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/linklista.php?nomeplaylist=005139-1<@>Casa_De_Brinquedos&opcao=umcd), se quiser ouvir a lista toda, tem um texto fenomenal na voz de Dionísio Azevedo (quem matou Salomão Ayala? É do tempo do Noadir). Mas falava da Simone e da música "Bicicleta". Hoje me peguei voltando no tempo. Beatriz e Pedro ganharam bicicletas de dia das crianças e lá fomos nós para a aventura do aprendizado. Tombos, ralados, muita risada e incentivo....e nada de desistir, estamos quase lá. Mais alguns hematomas e chegaremos lá, juntos! (Resolvi inverter o slogan para não gerar saudades em alguns...).
Aprendi a andar de bicicleta há 30 anos atrás, como passa o tempo (sei que é lugar comum, mas como sou eu que escrevo, vá lá...). Aprendi com uma caloi vermelha, pequena, depois evolui para uma dobrável verde, quem me ensinou foi meu irmão Júlio (saudades sempre), na época ele tinha 19 anos. Rua Pedro Mota, em Paulínia, já moravámos na altura do número 77. Meu pai não tinha lá muita paciência para me ensinar, bem que tentou, reconheço, mas depois do enésimo tombo, eu e ele desistimos de tentar juntos, aliás, ao longo da vida isso foi se tornando um hábito para ambos, mas escreverei sobre isso numa outra oportunidade. O Júlio me pegou e me disse, "tente comigo, acho que a gente consegue...". Montei na magrela (gíria dos anos 80, embora o fato tenha ocorrido em 1977), a rua tinha um leve declive. Ele cochichou no meu ouvido: "Estou segurando no banco, esqueça que estou aqui e concentre-se em manter o corpo firme e a bicicleta idem...vai!!". Quando cheguei ao fim da rua olhei pra trás e o Júlio não estava mais segurando no banco há um tempão. Estava no alto da rua, sorrindo de orelha a orelha...Desde 1989 o Júlio não segura mais o banco da minha bicicleta, foi ajudar alguns anjos a aprenderem a andar nas suas...

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

De Montes Claros a Belo Horizonte (Vôo 5595)

Estou copiando para este blog um dos textos que tive mais prazer em escrever, foi em 23/08/2006
Experiência única essa de falar aos professores de Ensino Médio das escolas oficiais do Estado de Minas Gerais. Ainda existem paladinos da educação neste país, que bom! Mesmo em condições adversas, faltando material e recursos, eles continuam acreditando que o poder da educação é transformar....e é mesmo, neste mesmo blog já narrei a história do Reginaldo, aluno que me faz valer todos esses anos de magistério.
Antes de começar a minha palestra, andei pelo pátio da E.E. Cel. Filomeno e observei a gurizada do Fundamental, bateu uma saudade doida dos meus pequenos, Pedro e Bia. Ao vê-los, veio à mente a composição de Chico Buarque e Garoto, "Meu Guri"....
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço?
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri

Me peguei orando por aqueles meninos que nem conheço e, que, muito provavelmente nunca mais verei.....Quantos deles lograrão terminar o Ensino Médio e ingressar numa universidade? Que país estamos legando a esses meninos? Onde repousa a esperança de mudança do destino desses meninos? As vezes bate um remorso, um sei lá o que de eu poder proporcionar aos meus filhos algo que esses meninos talvez jamais terão.....NÃO ERA PRA SER ASSIM!!! NÃO!!!......A pedidos, transcrevo o texto do Prof. Dr. Leandro Karnal:

"Na nossa cultura há um modelo de professor: Jesus. A maioria absoluta das pessoas no Brasil é cristã, mas a alegoria serve também para os que não são. Tomemos a história de Jesus independente da nossa orientação religiosa. Comparemos: Jesus teve 12 alunos escolhidos por Ele! Eu tenho 30, 60 100, escolhidos por um rigoroso processo de seleção: inscreveu, pagou, entrou. Jesus teve alunos em tempo integral por três anos; eu tenho por duas ou quatro horas semanais, por um período mais curto. Os alunos de Jesus deixaram tudo para segui-lo, o meu não deixa quase nada e não quer acompanhar nem meu pensamento, quanto mais minhas propostas existenciais. Fiel aos novos ditames do MEC, Jesus deu um curso superior em três anos. Para quem acredita, Ele fazia milagres, coisa que nós certamente não fazemos naquele sentido. A aula de Jesus, assim, era reforçada por workshops. A auto-estima e a confiança de Jesus eram enormes: o Cara simplesmente dizia que era filho de Deus, ressuscitava mortos, andava sobre as águas, passava quarenta dias sem comer e não tinha medo de ninguém. Eu não tenho esta convicção. Bem, após 3 anos de curso intenso com todos estes reforços, chegou à prova final. Na agonia do Horto, os três melhores alunos dormiram, quando o mestre estava chorando sangue. O tesoureiro da turma denunciou o professor à Delegacia de Ensino por trinta moedas. O líder da classe, Pedro negou que tivesse tido aula por três vezes diante da supervisora de ensino: "nunca vi este cara antes"... Outros nove fugiram sem dar notícia e não compareceram à prova final: O Calvário. O mais bobinho, São João, foi até lá, mas não fez nada para impedir que os guardas matassem o professor. Se considerarmos João, com boa vontade, o único aprovado, teremos uma aprovação de 8,33%, baixa demais para os padrões das Delegacias de Ensino e alvo de demissão sumária por justa causa. O professor morreu e , para quem acredita, voltou para uma recuperação de férias. Reuniu os reprovados e disse: mais uma chance. Primeira pergunta do líder da turma, Pedro: Senhor é, agora que vais restaurar o reino de Israel? Ou seja, o melhor aluno não aprendeu nada! Esta pergunta mostra o oposto da aula dada. Objetivo não atingido. Novos milagres, mais 40 dias de feedback, apostilas, recuperação, reforço de férias. Final de curso pirotécnico: subiu ao céu entre nuvens e anjos assistentes pedagógicos disseram que o mestre tinha ido para a sala dos professores eterna e não mais voltaria. O curso estava encerrado, todas as lições tinham sido dadas para aquela nata de 11 homens. O que eles fizeram? Foram se esconder numa casa, com medo e sem ter entendido tudo. O mestre mandou um módulo auto-instrucional de reforço, um anabolizante artificial: o Espírito Santo. Só então, com uma força que não era deles mas externa eles, começaram a entender e depois de três anos tiveram aquela famosa reação bovina: HUMMMMM. Finalmente começaram a entender algo. Enfim Jesus teve tantos insucessos apesar de tantas condições boas de trabalho. Hoje eu diria para todos os professores: faça o máximo, mas apenas o máximo, e deixe o resto por conta do resto. A frase parece autista, mas é muito importante. Nós temos um limite: a vontade do aluno, da instituição e da sociedade como um todo. Não transformamos nada sozinhos, mas transformamos. O primeira passo é a vontade. O segundo começa daqui a pouco, naquela sala difícil, com aquela turma sentada no fundo da sala que não quer nada com nada. Vamos lá!". (Prof. Dr. Leandro Karnal - IFCH - UNICAMP)

É isso......