quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Discurso da vitória - BARACK OBAMA

Olá, Chicago!

 

Se alguém aí ainda duvida de que os Estados Unidos são um lugar onde tudo é possível, que ainda se pergunta se o sonho de nossos fundadores continua vivo em nossos tempos, que ainda questiona a força de nossa democracia, esta noite é sua resposta.

 

É a resposta dada pelas filas que se estenderam ao redor de escolas e igrejas em um número como esta nação jamais viu, pelas pessoas que esperaram três ou quatro horas, muitas delas pela primeira vez em suas vidas, porque achavam que desta vez tinha que ser diferente e que suas vozes poderiam fazer esta diferença.

 

É a resposta pronunciada por jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, indígenas, homossexuais, heterossexuais, incapacitados ou não-incapacitados.

 

Americanos que transmitiram ao mundo a mensagem de que nunca fomos simplesmente um conjunto de indivíduos ou um conjunto de estados vermelhos e estados azuis.

 

Somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.

 

É a resposta que conduziu aqueles que durante tanto tempo foram aconselhados por tantos a serem céticos, temerosos e duvidosos sobre o que podemos conseguir para colocar as mãos no arco da História e torcê-lo mais uma vez em direção à esperança de um dia melhor.

 

Demorou um tempo para chegar, mas esta noite, pelo que fizemos nesta data, nestas eleições, neste momento decisivo, a mudança chegou aos EUA.

 

Esta noite, recebi um telefonema extraordinariamente cortês do senador McCain.

 

O senador McCain lutou longa e duramente nesta campanha. E lutou ainda mais longa e duramente pelo país que ama. Agüentou sacrifícios pelos EUA que sequer podemos imaginar. Todos nos beneficiamos do serviço prestado por este líder valente e abnegado.

 

Parabenizo a ele e à governadora Palin por tudo o que conseguiram e desejo colaborar com eles para renovar a promessa desta nação durante os próximos meses.

 

Quero agradecer a meu parceiro nesta viagem, um homem que fez campanha com o coração e que foi o porta-voz de homens e mulheres com os quais cresceu nas ruas de Scranton e com os quais viajava de trem de volta para sua casa em Delaware, o vice-presidente eleito dos EUA, Joe Biden.

 

E não estaria aqui esta noite sem o apoio incansável de minha melhor amiga durante os últimos 16 anos, a rocha de nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira-dama da nação, Michelle Obama.

 

Sasha e Malia amo vocês duas mais do que podem imaginar. E vocês ganharam o novo cachorrinho que está indo conosco para a Casa Branca.

 

Apesar de não estar mais conosco, sei que minha avó está nos vendo, junto com a família que fez de mim o que sou. Sinto falta deles esta noite. Sei que minha dívida com eles é incalculável.

 

A minha irmã Maya, minha irmã Auma, meus outros irmãos e irmãs, muitíssimo obrigado por todo o apoio que me deram. Sou grato a todos vocês. E a meu diretor de campanha, David Plouffe, o herói não reconhecido desta campanha, que construiu a melhor campanha política, creio eu, da história dos Estados Unidos da América.

 

A meu estrategista chefe, David Axelrod, que foi um parceiro meu a cada passo do caminho.

 

À melhor equipe de campanha formada na história da política. Vocês tornaram isto realidade e estou eternamente grato pelo que sacrificaram para conseguir.

 

Mas, sobretudo, não esquecerei a quem realmente pertence esta vitória. Ela pertence a vocês. Ela pertence a vocês.

 

Nunca pareci o candidato com mais chances. Não começamos com muito dinheiro nem com muitos apoios. Nossa campanha não foi idealizada nos corredores de Washington. Começou nos quintais de Des Moines e nas salas de Concord e nas varandas de Charleston.

 

Foi construída pelos trabalhadores e trabalhadoras que recorreram às parcas economias que tinham para doar US$ 5, ou US$ 10 ou US$ 20 à causa.

 

Ganhou força dos jovens que negaram o mito da apatia de sua geração, que deixaram para trás suas casas e seus familiares por empregos que os trouxeram pouco dinheiro e menos sono.

 

Ganhou força das pessoas não tão jovens que enfrentaram o frio gelado e o ardente calor para bater nas portas de desconhecidos, e dos milhões de americanos que se ofereceram como voluntários e organizaram e demonstraram que, mais de dois séculos depois, um Governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra.

 

Esta é a vitória de vocês.

 

Além disso, sei que não fizeram isto só para vencerem as eleições. Sei que não fizeram por mim.

 

Fizeram porque entenderam a magnitude da tarefa que há pela frente. Enquanto comemoramos esta noite, sabemos que os desafios que nos trará o dia de amanhã são os maiores de nossas vidas - duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira em um século.

 

Enquanto estamos aqui esta noite, sabemos que há americanos valentes que acordam nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para dar a vida por nós.

 

Há mães e pais que passarão noites em claro depois que as crianças dormirem e se perguntarão como pagarão a hipoteca ou as faturas médicas ou como economizarão o suficiente para a educação universitária de seus filhos.

 

Há novas fontes de energia para serem aproveitadas, novos postos de trabalho para serem criados, novas escolas para serem construídas e ameaças para serem enfrentadas, alianças para serem reparadas.

 

O caminho pela frente será longo. A subida será íngreme. Pode ser que não consigamos em um ano nem em um mandato. No entanto, EUA, nunca estive tão esperançoso como estou esta noite de que chegaremos.

 

Prometo a vocês que nós, como povo, conseguiremos.

 

Haverá percalços e passos em falso. Muitos não estarão de acordo com cada decisão ou política minha quando assumir a presidência. E sabemos que o Governo não pode resolver todos os problemas.

 

Mas, sempre serei sincero com vocês sobre os desafios que nos afrontam. Ouvirei a vocês, principalmente quando discordarmos. E, sobretudo, pedirei a vocês que participem do trabalho de reconstruir esta nação, da única forma como foi feita nos EUA durante 221 anos, bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada sobre mão calejada.

 

O que começou há 21 meses em pleno inverno não pode acabar nesta noite de outono.

 

Esta vitória em si não é a mudança que buscamos. É só a oportunidade para que façamos esta mudança. E isto não pode acontecer se voltarmos a como era antes. Não pode acontecer sem vocês, sem um novo espírito de sacrifício.

 

Portanto façamos um pedido a um novo espírito do patriotismo, de responsabilidade, em que cada um se ajuda e trabalha mais e se preocupa não só com si próprio, mas um com o outro.

 

Lembremos que, se esta crise financeira nos ensinou algo, é que não pode haver uma Wall Street (setor financeiro) próspera enquanto a Main Street (comércio ambulante) sofre.

 

Neste país, avançamos ou fracassamos como uma só nação, como um só povo. Resistamos à tentação de recair no partidarismo, na mesquinharia e na imaturidade que intoxicaram nossa vida política há tanto tempo.

 

Lembremos que foi um homem deste estado que levou pela primeira vez a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre os valores da auto-suficiência e da liberdade do indivíduo e da união nacional.

 

Estes são valores que todos compartilhamos. E enquanto o Partido Democrata conquistou uma grande vitória esta noite, fazemos com certa humildade e a determinação para curar as divisões que impediram nosso progresso.

 

Como disse Lincoln a uma nação muito mais dividida que a nossa, não somos inimigos, mas amigos. Embora as paixões os tenham colocado sob tensão, não devem romper nossos laços de afeto.

 

E àqueles americanos cujo apoio eu ainda devo conquistar, pode ser que eu não tenha conquistado seu voto hoje, mas ouço suas vozes. Preciso de sua ajuda e também serei seu presidente.

 

E a todos aqueles que nos vêem esta noite além de nossas fronteiras, em Parlamentos e palácios, a aqueles que se reúnem ao redor dos rádios nos cantos esquecidos do mundo, nossas histórias são diferentes, mas nosso destino é comum e começa um novo amanhecer de liderança americana.

 

A aqueles que pretendem destruir o mundo: vamos vencê-los. A aqueles que buscam a paz e a segurança: apoiamo-nos.

 

E a aqueles que se perguntam se o farol dos EUA ainda ilumina tão fortemente: esta noite demonstramos mais uma vez que a força autêntica de nossa nação vem não do poderio de nossas armas nem da magnitude de nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e firme esperança.

 

Lá está a verdadeira genialidade dos EUA: que o país pode mudar. Nossa união pode ser aperfeiçoada. O que já conseguimos nos dá esperança sobre o que podemos e temos que conseguir amanhã.

 

Estas eleições contaram com muitos inícios e muitas histórias que serão contadas durante séculos. Mas uma que tenho em mente esta noite é a de uma mulher que votou em Atlanta.

 

Ela se parece muito com outros que fizeram fila para fazer com que sua voz seja ouvida nestas eleições, exceto por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.

 

Nasceu apenas uma geração depois da escravidão, em uma era em que não havia automóveis nas estradas nem aviões nos céus, quando alguém como ela não podia votar por dois motivos - por ser mulher e pela cor de sua pele.

 

Esta noite penso em tudo o que ela viu durante seu século nos EUA - a desolação e a esperança, a luta e o progresso, às vezes em que nos disseram que não podíamos e as pessoas que se esforçaram para continuar em frente com esta crença americana: Podemos.

 

Em uma época em que as vozes das mulheres foram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela sobreviveu para vê-las serem erguidas, expressarem-se e estenderem a mão para votar. Podemos.

 

Quando havia desespero e uma depressão ao longo do país, ela viu como uma nação conquistou o próprio medo com uma nova proposta, novos empregos e um novo sentido de propósitos comuns. Podemos.

 

Quando as bombas caíram sobre nosso porto e a tirania ameaçou ao mundo, ela estava ali para testemunhar como uma geração respondeu com grandeza e a democracia foi salva. Podemos.

 

Ela estava lá pelos ônibus de Montgomery, pelas mangueiras de irrigação em Birmingham, por uma ponte em Selma e por um pregador de Atlanta que disse a um povo: "Superaremos". Podemos.

 

O homem chegou à lua, um muro caiu em Berlim e um mundo se interligou através de nossa ciência e imaginação.

 

E este ano, nestas eleições, ela tocou uma tela com o dedo e votou, porque após 106 anos nos EUA, durante os melhores e piores tempos, ela sabe como os EUA podem mudar.

 

Podemos.

 

EUA avançamos muito. Vimos muito. Mas há muito mais por fazer. Portanto, esta noite vamos nos perguntar se nossos filhos viverão para ver o próximo século, se minhas filhas terão tanta sorte para viver tanto tempo quanto Ann Nixon Cooper, que mudança virá? Que progresso faremos?

 

Esta é nossa oportunidade de responder a esta chamada. Este é o nosso momento. Esta é nossa vez.

 

Para dar emprego a nosso povo e abrir as portas da oportunidade para nossas crianças, para restaurar a prosperidade e fomentar a causa da paz, para recuperar o sonho americano e reafirmar esta verdade fundamental, que, de muitos, somos um, que enquanto respirarmos, temos esperança.

 

E quando nos encontrarmos com o ceticismo e as dúvidas, e com aqueles que nos dizem que não podemos, responderemos com esta crença eterna que resume o espírito de um povo: Podemos.

 

Obrigado. Que Deus os abençoe. E que Deus abençoe os Estados Unidos da América".

 

(Barack Hussein Obama Jr., 04/11/2008, Presidente Eleito dos EUA)

Yes! We Can!! And now, Mister President?

Sim, podemos!  E agora Obama?

Como historiador e cientista social, não poderia me furtar a refletir sobre o aconteceu nas últimas 48 horas nos EUA.

 

Estou ainda absorto nas leituras, vídeos e áudios sobre Barack Obama.  Sem dúvida, é histórico, com H maiúsculo.  Aliás, a primeira década do século XXI tem sido de tirar o fôlego de qualquer sujeito que faça das Ciências Humanas seu meio de vida. Observe comigo:

·         2001 – torres são derrubadas por aviões em Nova Iorque;

·         2002 – um operário é eleito num país tradicionalmente oligárquico e aristocrático, a “Esperança venceu o medo”;

·         2004 – ondas gigantescas devastam o Pacífico Sul;

·         Entre 2004 e 2008, a América Latina assiste à ascensão de novos políticos populares de origem nativa, rompendo a tradição política herdada dos criollos;

·         2008 – um padre rompe 60 anos de dominação do Partido Colorado no Paraguai;

·         Nov/2008 – Um negro, com nome muçulmano, é eleito Presidente dos EUA.

 

Para onde vai o mundo?  Não se faz idéia.  O fato é que se espera muito de Obama e isso é muito perigoso.  Salvadores do mundo são preocupantes, mesmo quando eles não se considerem assim.

 

Um discurso emocionante, cada palavra dita na medida certa da emoção.  Como não se lembrar de Martin Luther King (I have a dream)?  Se você notar, há citações de Lincoln, King e dos pais da pátria em todo o discurso de Obama.  A imagem do Reverendo Jesse Jackson, que marchou com Luther King em 1963 e o socorreu após o tiro fatal em 1968 é de arrepiar.

 

Enfim, Obama ganhou e até o adversário derrotado o apoiou em seu discurso de despedida. Uso Drummond de Andrade, um poeta que me faz muita falta, e indago: “E agora Obama?” E me lembro de Nelson Rodrigues: “Toda a unanimidade é burra”.

sábado, 1 de novembro de 2008

491 anos de Reforma Protestante, e agora, o que fazer?

No dia 31 de outubro de 1517 o monge agostiniano Martinho Lutero afixou nas portas de sua igreja, em Wittemberg, na Alemanha, um anúncio contendo 95 teses contra a venda das indulgências e a infalibilidade do Papa.  Esse gesto inaugurou um processo histórico conhecido como Reforma Protestante.

Você que me lê neste momento já é suficientemente crescido para se lembrar de seu pecado mais escabroso, aquele que só de lembrar, estando sozinho, você sente um aquecimento por dentro, as faces ruborizam e a vergonha toma conta do seu ser.  Esse mesmo! Lembrou?  Pois bem, se fosse possível para você pagar um determinado valor que o livrasse desse sentimento, quanto você pagaria?

Pois bem, durante a Baixa Idade Média (séculos XI ao XVI), disseminou-se a idéia da necessidade de se pagar indulgências para a obtenção do perdão divino, eliminação dos pecados (passado, presente e futuro) e garantia de acesso ao Paraíso, sem passar pelo Purgatório (espécie de ante-sala do Céu, para purificar a sua alma, uma vez que o sacrifício vicário de Cristo não era suficiente, vê se pode isso...). Ah!  Se você pagasse o dobro do valor estipulado, poderia escolher um parente morto para livrá-lo do Purgatório também, já que ele morreu sem saber dessa liquidação relâmpago de perdão e salvação.

Após formar-se no seminário, o jovem Lutero foi para Wittemberg, lecionar Teologia do Novo Testamento.  Devido à sua sagacidade e raciocínio brilhante, associado às inquietações e indagações típicas do homem renascentista, Lutero logo se tornou um dos professores mais populares da universidade.  Passou a ministrar as missas para a cidade também, mas de uma forma totalmente nova, falando de frente para os fiéis, em alemão, quando a prática era de costas para o público e em latim, ou seja, ninguém entendia patavinas... As pessoas saíam da igreja, após a missa ministrada por Lutero dizendo: “Finalmente entendi alguma coisa!” ou “Agora sim!”.  Alguns tinham aquela famosa reação bovina: “hmmmmmmmmmmmm...”

O superior de Lutero, o bispo de Tetzel, autorizou a venda de indulgências em Wittemberg, Lutero protestou contra o fato, tentou instruir os fiéis e finalmente afixou as teses na porta da sua igreja.  Há que se entender o contexto da época, as igrejas eram o centro social, político, cultural e, de vez em quando, religioso das cidades medievais.  Afixar algum anúncio na porta de uma igreja era o mesmo que colocar um anúncio de primeira página no jornal de maior circulação de uma cidade dos dias atuais.  Tinha uma divulgação e credibilidade.

Lutero foi chamado a retratar-se de suas teses, sob pena de excomunhão e morte.  Pediu 24 horas para pensar e orar, de acordo com a tradição, após esse período, respondeu:

"Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão - porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos - pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável.

Não posso fazer outra coisa, esta é a minha posição. Que Deus me ajude!” (Worms, 17 de abril de 1525).  Nesta ocasião, Lutero tinha 42 anos de idade.  Havia publicado as suas teses aos 34 anos.  Bons tempos nos quais jovens de 34 anos (e digo jovens, pois para mim, que estou batendo nos 40, todo sujeito abaixo dessa idade é novinho, novinho, ainda mais que temos adolescentes de 40 anos atualmente...) estavam prontos a mudar seu mundo.

Mas isso tudo é História, passaram-se 491 anos.  A Reforma é uma realidade no ocidente e no mundo.  O Brasil é o país que mais exporta missionários evangélicos.  O Protestantismo é o seguimento religioso que mais cresce no nosso país.  Aliás, virou moda o sujeito dizer que se converteu.  Alguns dos que me lêem lembram-se do tempo em que dizer que era protestante numa sala de aula ou ambiente de trabalho era sinônimo de exclusão, de estranhamento.  Um tempo atrás conversava com um amigo, filho de pastor, que me contava das dificuldades para se plantar igrejas no interior do Brasil.  Momentos em que ele se lembrava de ficar encolhido, abraçado à sua mãe, dentro de casa, enquanto pessoas apedrejavam a casa pelo simples fato de serem protestantes, ou ainda, de ser colocado isolado na sala de aula, para não se misturar com as outras crianças. 

Hoje temos garantida a nossa liberdade na própria lei do país, como isso custou caro.  Como o simples fato de domingo eu sair da minha casa, com a minha família, ir para a igreja, encontrar irmãos da mesma fé, louvar, ouvir a Palavra de Deus, tudo isso livremente, sem hostilidades.  Só isso já se torna uma grande benção.  Mas foi caro, muito caro. 

É notório que a igreja protestante necessita de uma nova Reforma, perdemos a simplicidade do evangelho, perdemos a suficiência da Cruz. A cada dia ouço sobre o surgimento de novo profeta ou profetisa, da necessidade de saber mais sobre o inimigo do que sobre Deus, com a desculpa de se estar mais equipado para o “combate”.  Ouço sobre o aumento do sectarismo e populismo evangélico, pessoas que vão às igrejas e não entendem o dialeto ali falado ou a coreografia apresentada nesse momento denominado de “louvor”.

Que nesse dia de aniversário da Reforma possamos nos contentar e alegrar com as palavras de Lutero:

Somente Cristo, Somente a Graça, Somente a Fé

 


Campinas, Primavera de 2008

terça-feira, 3 de junho de 2008

MELHORES MOMENTOS - A história do Reginaldo

Há alguns anos escrevi essa história em outro espaço. Duas semanas atrás, conversando com turma de universitários da Chácara Primavera contei a história do Reginaldo, que reproduzo abaixo.

A MELHOR PROFISSÃO DO MUNDO

Ser professor é a melhor profissão do mundo. Ponto, parágrafo!

Dias atrás escrevi que a juventude de hoje carece de sonhos, desafios e limites. Tive reações adversas, mas, para aqueles que me argüiram e afirmaram que exagerei, deixem-me relatar um fato ocorrido há algum tempo atrás e que me inspira até hoje.

Temos que voltar a 1995, naquele ano me envolvi em um projeto de implantação de uma grife educacional em Campinas, que alavancou a minha carreira e é diretamente responsável pela minha projeção no mercado dos cursinhos pré-vestibulares. Mas sobre isso escreverei posteriormente para exorcizar os fantasmas de meu passado.

Naquele ano tornei-me coordenador de um cursinho pré-vestibular, além de lecionar no mesmo local, o que me fez conviver diariamente naquela instituição, dividi a coordenação com um grande amigo (Lorenço), eu ficava no turno tarde/noite. Por conta disso, nos horários de saída da turma da tarde e entrada da turma da noite eu estava sempre presente e acabei conhecendo mais pessoalmente alguns alunos e suas histórias. Apesar do desgaste maior, sempre tive uma maior predileção pelas turmas noturnas, costumam dar mais valor ao nosso trabalho pois, geralmente, são os próprios alunos que custeiam seus estudos.

Dentre os vários que conheci, Reginaldo (turma da noite) foi o mais marcante. Certa tarde, por volta das 17h45, noto que no saguão de recepção do curso, lá estava Reginaldo folheando o jornal do dia. Puxei papo:

- Meio cedo pra você estar aqui, camarada, não dá tempo de ir até em casa e voltar pra aula das 19h15? Indaguei.

- Xi, professor, se eu fizer isso, perco a hora, moro longe, por isso prefiro vir pra cá depois do trabalho, leio o jornal e vou estudar um pouco até o ínicio da aula. Assim ele me respondeu.

- Pelo menos um lanche você toma? Continuei.

- Somente enquanto duram meus tíquetes durante o mês, depois eu aguento até chegar em casa, sabe como é, passagem de ônibus, alimentação, vai grana e o que eu ganho vai praticamente tudo pra pagar o cursinho....

- Vai prestar o que?

- Engenharia elétrica, noturno, na Unicamp, bem concorrido, né?

- De fato, mas se você continuar assim, vai passar Reginaldo, boa sorte...

Encerrei a conversa condoído com o relato, esse menino saía de casa todos os dias por volta das 6h00, trabalhava o dia todo, vinha pro cursinho, às vezes sem jantar, sem um banho revigorante, assistia a todas as aulas, não faltava aos simulados que eram aplicados nos domingos pela manhã e as suas chances eram mínimas. Disse pra ele que daquele dia em diante ele ficava proibido de assistir aula sem, pelo menos, lanchar. Pedi pro pessoal da cozinha, que preparava o lanche dos professores para separar um lanche a mais e dar pro Reginaldo, que, em princípio, não aceitou,mas diante da minha insistência (que não foi tanta assim...) acabou cedendo.

Passado esse fato, houve uma noite que tive que ficar até o fechamento do curso, nesse tempo as aulas iam até 23h20. Vai hoje colocar aulas depois das 22h30.....não fica ninguém. Assim que todos se foram, saí da escola, me despedi do vigia que passava a noite no prédio e dirigi-me ao estacionamento, era uma fria noite de maio em Campinas e o outono estava mais para inverno naquela ocasião. Ao sair do curso me deparo com Reginaldo todo encolhido debaixo da marquise do prédio. Fiquei sabendo que todos os dias ele esperava seu pai ali, que passava para buscá-lo entre 0h30 e 1h00....O pai de Reginaldo era motorista de ônibus fretado, que transportava alunos para uma cidade próxima, após deixar todos, o pai voltava pra pegar o filho e voltarem juntos pra casa. Chegando em casa, ele ainda estudava até as 3h00...

Fiquei sabendo também que aquele seria seu primeiro e último ano de cursinho, pois o seu salário ajudava nas despesas domésticas e já estava fazendo falta, passar na Unicamp era a única possibilidade de continuar seus estudos...Eu e meus companheiros mais chegados de profissão passamos a sonhar junto com ele. Veio o vestibular e a apreensão da 1a. fase, Reginaldo passou....passamos a respirar mais aliviados, mas agora vinha a agonia da 2a. fase, quatro dias de provas em janeiro, pra depois ficar um mês apreensivo, esperando a lista de aprovados.

O fato é, Reginaldo foi aprovado, quando recebemos a lista (nessa época ainda não se divulgava pela internet...absurdo, não?) e pudemos ver seu nome nela, foi uma alegria sem tamanho, risos, choro, caras pintadas, cabelos raspados... e depois disso perdi o contato com o Reginaldo...trombei com ele no mês passado, na Unicamp. Aliás, não é mais Reginaldo, é DOUTOR Reginaldo. Ele concluiu sua graduação em 2001, entre 2002 e 2006 ele pós-graduou-se e agora está partindo para a Universidade de Albany (EUA), onde fará seu pós-doutoramento......Como diz o Prof. Dr. Leandro Karnal: "Não transformamos nada sozinhos, mas transformamos.."

Em tempo, o pai de Reginaldo não precisa mais dirigir ônibus fretados....Boa sorte camarada, continue nos enchendo de orgulho!!!!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

DEUS CONOSCO

...”dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel”, que significa “Deus conosco”. (Mt 1.23)

Caso você não more numa caverna, sem acesso ao que acontece no mundo, deve ter acompanhado o caso dos reféns das FARCs. Chamou-me muito a atenção o caso do menino Juan David (também conhecido como Emmanuel). Fruto de uma relação com um seqüestrador, Emmanuel tinha tudo para não vingar. Nascido de cesariana, no meio da selva, parto feito por um guerrilheiro que estudara medicina, em condições precárias. Uma faca de cozinha foi utilizada para fazer a incisão. Logo ao nascer, o bebê teve o braço fraturado. Aos oito meses foi tirado da mãe e criado em condições mínimas por uma família. Com leishmaniose, malária, diarréia aguda e a constante fratura no bracinho, o bebê chamou a atenção dos assistentes sociais de um hospital, que conseguiram a guarda do mesmo pelo Estado Colombiano. Transferido a Bogotá, incógnito, Emmanuel foi adotado por uma família substituta. Ontem (14/01/2008) encontrou sua mãe biológica. Como diz meu amigo Fred Lima, Deus protege os bebês e os bêbados. No caso de Emmanuel, coincidência ou não, seu nome demonstra a Divina Providência. Emmanuel quer dizer “Deus conosco”.

Ao Mestre Márcio, com carinho...

Por que ELE vive posso crer no amanhã

Por que ELE vive temor não há

Mas eu bem sei, eu sei...

Que a minha vida, está nas mãos do meu Jesus,

Que vivo está...

E quando, enfim, chegar a hora..

Em que a morte, enfrentarei

Sei que então, terei vitória

Verei na glória, o meu Jesus

Que vivo está...

Este era um dos cânticos preferidos do Márcio. Durante a semana, o Márcio era professor, um brilhante e exigente professor. Interessante isso, ele acreditava numa educação formal, rígida e consistente. Não tinha o compromisso de agradar o aluno, ou, o cliente, como definem alguns mantenedores hoje. O compromisso do Márcio era com a educação, com o escrever bem e coerente. Essa exigência era mal interpretada por alguns alunos. Márcio não fazia média e deixava claro o óbvio, a sala de aula tem ficado burra nestes últimos anos. Em nome de uma pseudo-modernidade tem-se deixado achincalhar a escrita com a mais variada gama de absurdos. Era contra isso que o Márcio militava. Aos finais de semana, Márcio deixava de ser professor e se transformava num aluno aplicado da Escola Bíblica Dominical da Igreja do Nazareno Central de Campinas.

Aproveitando isso, no capítulo 11 do Evangelho de São João, Jesus se depara com a morte de um querido amigo, Lázaro. Depois de avisado da doença grave e eminente morte do amigo, ele ainda se demora a chegar, ao ser avisado da morte, ele continua a se demorar a chegar, as irmãs de Lázaro (Marta e Maria) não se conformam com a demora do Mestre. Ele chega à Betânia, cidade de Lázaro, e se depara com as cenas de pranto em função da morte do amigo querido. As irmãs cobram a presença de Jesus, sem muito pressão, mas cobram. O Mestre se achega ao túmulo, se vê face a face com a morte, a morte de um amigo querido, precioso. As Sagradas Escrituras afirmam que a morte não fazia parte do plano A de Deus para o homem. A Bíblia denomina a morte como “o último inimigo a ser destruído”(1 Co 15.26). Interessante como as traduções dessa passagem (Jo 11.33-35) nos dão uma idéia equivocada do que o evangelista João quis nos dizer. No verso 33 desse capítulo lemos que Jesus ao deparar-se com essa cena “agitou-se no espírito e perturbou-se” (NVI). O verbo grego original aqui é enebrimesato, termo usado para referir a “bufar, resfolegar em forma de indignação humana e/ou em referência a cavalos”. Quando Jesus se aproxima do túmulo de seu amigo, ele está com uma fúria irreprimível! Ele vê, nas palavras de Calvino, a “violenta tirania” da morte. A anormalidade, a opressão daquilo que não fazia parte do plano A. A segunda reação de Jesus é de profunda tristeza e compaixão. No verso 35, Jesus chora, chora com as irmãs de Lázaro, se junta à elas.

Márcio era um grande amigo, convivi alguns anos com ele e sou grato a Deus pelo privilégio desses anos. Conheci-o através de uma amiga comum, a Valéria, professora de literatura. Durante dois anos viajamos juntos para trabalhar. Bons papos indo à Piracicaba. Inacreditável como a sua partida, de maneira abrupta, me deixou pasmo. Conversando com a Valéria no dia do funeral, em direção à Rio Pardo, disse-lhe que não conseguia trabalhar a idéia de sua morte, que para mim ele tinha, na verdade, partido para fazer seu doutorado na Europa (seu sonho recorrente). Uma vez por lá, devido à sua competência, fora contratado por uma universidade e não mais voltaria para os trópicos. Essa idéia é melhor. Deixar de viver é algo determinado pela natureza, mas deixar de viver tão cedo e com tantos planos a cumprir, não me conformo. Márcio, você alcançou algo que almejo alcançar, estar na presença do Pai Celestial. Eu ainda estou na ante-sala, você já foi pra sala principal. Vai em paz amigo, que este mundo não pode mais te fazer mal.

Você escreve melhor do que uma menina de 9 anos???

Olá a todos!! Faz tempo que não apareço por aqui...achei um texto da minha filha, que transcrevo da maneira mais fiel possível em relação ao manuscrito original...depois eu volto...

31/08/2007

Caros (as) alunos (as):

Hoje irei contar uma história real, ela começa assim:

Há alguns anos atrás (qual ano eu não lembro), a NASA resolveu mandar astronautas para a lua e, como sempre, a NASA tem que fazer estudos sobre os dias, horas e etc.

Toda a vez que eles iam fazer estudos, o computador parava e eles perceberam que estava faltando um dia na história. Um dos cientistas era cristão e se lembrou de uma história em que o sol parou, então ele disse:

- Pessoal, na Bíblia tem uma história que diz que o sol parou!

Eles foram ver e constataram que o cientista tinha razão!

Bom, agora vou falar quem sou eu...Sou a Anna Beatriz, filha do Prof. Eduardo, conheci a história com a professora Cláudia e olha que eu tenho 9 anos.

Agora, se você quiser saber a história do sol que parou, procure em Josué 10.1-28.

BOA AULA.